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Troca de informação sobre adaptação às mudanças climáticas

Updated: Nov 27, 2020



Primeiros resultados do projeto ADAFARM: Troca de informação sobre adaptação às mudanças climáticas de pequenos agricultores em Moçambique


O projeto ADAFARM intitula-se "Estratégias de Adaptação às Mudanças Climáticas Sustentáveis para Pequenos Agricultores em Moçambique". Obtivemos os primeiros resultados e conclusões do projeto, que tem como foco o acesso e a troca de informação sobre mudanças climáticas. Apresentamos a seguir as principais conclusões, que serão publicadas numa revista científica e divulgadas através de reuniões e de resumos partilhados entre especialistas da Europa e África.


Moçambique enfrenta grandes desafios decorrentes das mudanças climáticas, como se verificou pelo impacto agradado dos ciclones e secas que se abateram nos últimos anos. Para que as famílias de agricultores africanas se possam adaptar às mudanças climáticas e melhorar a sua condição de vida, são necessárias melhorias importantes, tais como, facilitar o acesso a terras férteis e de qualidade; melhorar o acesso ao mercado; melhorar o seu acesso a recursos como créditos, trabalho e tecnologia; promover o conhecimento de técnicas agrícolas que beneficiem a qualidade dos solos e se adaptem às mudanças climáticas; resumindo: melhorar a troca de informação. Esta última necessidade, o acesso e troca de informação útil e de qualidade, pode servir tanto para melhorar as estratégias de adaptação às mudanças climáticas quanto para melhorar outros aspectos das suas vidas, como a educação, higiene, saúde, nutrição, procura de emprego, etc. Estas famílias de agricultores precisam de informação relacionada com as mudanças climáticas que estão a ocorrer na sua região, nomeadamente, as consequências mais prováveis para a agricultura, bem como informação sobre novas opções de adaptação a estas mudanças.


Pequeno painel solar usado para recarregar celulares. A expansão de ambas as tecnologias pode representar uma mudança radical no acesso à informação para famílias que vivem em áreas distantes dos grandes centros de consumo.


Este projecto teve como objectivo avaliar a actual troca de informação entre agricultores e instituições em Moçambique e como melhorar esse intercâmbio no futuro. Para isso, foram realizados inquéritos, entrevistas e reuniões a cem agricultores em quatro distritos do país, e nove entrevistas com diferentes instituições que trabalham para o desenvolvimento dos agricultores. O objetivo é saber que fontes de informação utilizam actualmente para desenvolver a sua actividade agrícola, e como o acesso à informação pode ser melhorado no futuro. Agricultores e instituições foram também avaliados pelas diferenças de género e pela sua situação geográfica ao longo do país.


Abaixo, apresentamos as seis conclusões mais importantes a que o estudo chegou. Salientam-se as diferenças encontradas no acesso à informação entre os agricultores de acordo com 1) o seu género; 2) diferenças de percepção entre agricultores e instituições; 3) as diferentes áreas geográficas estudadas em função da proximidade à capital do país (Maputo); 4) as estratégias de adaptação às mudanças climáticas identificadas com maior potencial; e 5) as principais barreiras existentes que os agricultores enfrentam para trocar informação. Finalmente, incluímos algumas recomendações finais para melhorar a troca de informação no futuro.


1. Diferenças de género

  • Está comprovado que as mulheres, para além de terem menos acesso à educação e maiores níveis de analfabetismo, têm menos acesso às tecnologias de informação, como telemóveis, smartphones e rádios.

  • E que as mulheres dão maior importância e gravidade ao problema do analfabetismo do que os homens (65% das mulheres acreditam que o analfabetismo é um problema, contra 38% dos homens).


2. Diferenças entre agricultores e instituições

  • Mais do que os agricultores (especialmente os homens), as instituições consideram que o analfabetismo é uma barreira ao acesso de nova informação.

  • As instituições acreditam que a rádio é um instrumento mais útil do que aquilo considerado pelos agricultores. A diferença deve-se ao facto de que o serviço de rádio comunitária (rádios locais) não funcionar bem em muitas partes do país.


3. Diferenças entre os distritos perto de Maputo e aqueles mais distantes

  • Foram estudados dois distritos muito distantes de Maputo e dois distritos localizados perto da capital. As comunidades perto de Maputo têm maior acesso a eletricidade do que as que estão longe. Em parte, mas não apenas por isso, essas comunidades têm melhor acesso à rádio e à televisão. Para além disso, possuem também um maior número de telemóveis e smartphones: perto de Maputo, 85% dos agricultores possuem telemóvel, contra 42% dos que vivem longe da capital; e 15% têm smartphones em comparação com 4% daqueles que estão longe de Maputo.

  • Perante catástrofes climáticas, as populações mais remotas são mais vulneráveis: elas têm menos resiliência e a sua produção agrícola é menor.


4. Estratégias de adaptação às alterações climáticas e à falta de informação

  • As estratégias de adaptação às mudanças climáticas consideradas mais necessárias são a introdução ao regadio e o uso de sementes de alta qualidade adaptadas às mudanças climáticas. Estas foram as opções mais votadas tanto pelos agricultores como pelas instituições entrevistadas (obtiveram as maiores pontuações numa escala de 1 a 5: 3,5).

  • Uma das estratégias de maior impacto é a construção de barragens que, na opinião dos participantes, melhoraria significativamente a produção agrícola, especialmente no sul do país, que sofre um longo período de seca de mais de cinco anos.



Fazendas de milho no distrito de Marrupa. Novas terras são abertas em áreas antes ocupadas por florestas. A dificuldade de retirar os troncos das árvores dificulta o trabalho com tratores ou animais.


5. Barreiras identificadas na troca de informação

  • As barreiras mais graves identificadas pelos participantes são (numa escala de 0 a 5) o custo das tecnologias de informação (internet, telemóveis, rádio e TV) (2,9), a falta de electricidade (2,8) e o analfabetismo (a primeira barreira identificada pelas instituições e mulheres). Outras das barreiras assinaladas são a falta de agentes de extensão agrícola e a falta de centros de formação.

  • A partir dos inquéritos, verificou-se que aqueles participantes que carecem de algum elemento, o valorizam mais intensamente do que os que não carecem. Por exemplo, as mulheres apresentam taxas de analfabetismo mais altas e consideram, mais do que os homens, que o analfabetismo é uma barreira para obter melhor informação. Da mesma forma, as comunidades distantes de Maputo, que não têm electricidade, apontam a falta de electricidade como um problema mais grave do que as comunidades que têm acesso a ela.


Recomendações para melhorar a troca de informação:

  • A rádio é considerada muito útil, mas não funciona bem nos distritos mais longe de Maputo. Neles, este sistema não é valorizado de forma tão positiva. É também, mais valorizado pelas instituições do que pelos próprios agricultores. Portanto, melhorar o sinal de rádio pode ser uma forma económica e que abrange muita gente, ou seja, com um investimento relativamente pequeno é possível alcançar uma maior parte da população. Com a rádio podem-se desenvolver programas agrícolas informativos sobre as causas das mudanças climáticas, as suas consequências, dar a previsão do tempo, entre outros temas.

  • Os smartphones têm um grande potencial para melhorar a troca de informação, pois facilitam o acesso a imagens, vídeos, etc. No entanto, é muito pouco valorizado tanto pelos agricultores como pelas instituições. O principal problema para aumentar o seu uso é o custo e o acesso à electricidade, mas pode ser mais atraente no futuro para as gerações mais jovens, enquanto a rádio pode ser mais interessante para as restantes gerações. Ou seja, é sempre positivo apostar em medidas diversificadas.

  • As igrejas são o recurso menos valorizado pelas instituições, mas são valorizadas positivamente pelos agricultores. Elas podem ter um alto potencial para serem usadas na distribuição de informação agrícola.

  • A formação de agricultores é uma das propostas mais valorizadas por ambos agricultores e instituições. Pode ser desenvolvida de várias formas: através da criação de centros de formação (para jovens e/ou adultos) nas comunidades ou centros distritais; formar alguns representantes da comunidade para regressarem e ajudarem os restantes agricultores; e através de reuniões ou pequenas formações com representantes das aldeias e cidades.

  • Os materiais escritos são o meio menos valorizado para a transmissão de informação actualmente em Moçambique, tanto por agricultores como por instituições.

  • A fonte de informação considerada como mais útil são os agentes de extensão agrícola. A extensão agrícola é um processo educacional informal orientado à população rural, que dá assessoria e informação para ajudar a resolver os seus problemas. Facilita o intercâmbio directo entre produtores e técnicos agrícolas para diagnosticar problemas, aproveitar o conhecimento existente, trocar experiências, divulgar melhorias comprovadas e até desenvolver projectos comuns. Por este motivo, parece fundamental que o governo de Moçambique trabalhe na melhoria deste recurso como forma de ajudar na adaptação às mudanças climáticas e no desenvolvimento das famílias de agricultores. Abaixo estão algumas das recomendações que os participantes propuseram para melhorar o serviço de extensão agrícola:

  1. Garantir que os extensionistas trabalhem nas mesmas comunidades (cidades) a longo prazo, ou seja, durante um elevado número de anos.

  2. Juntar os extensionistas com instituições e projetos de investigação para que a investigação se centre nos problemas mais urgentes e para chegue à população as soluções aplicadas à realidade local.

  3. Melhorar a formação dos extensionistas, tanto ao nível dos seus conhecimentos agronómicos, como da comunicação com os agricultores e outros aspectos do desenvolvimento comunitário.

  4. Aumentar o uso do conhecimento local: fazer com que os extensionistas valorizem as práticas locais de sucesso.

  5. Que o seu trabalho não se foque exclusivamente na agricultura: que possam apoiar a população em todas as suas necessidades (por exemplo, problemas relacionados com o acesso à água, saúde).

  6. Que ajudem os agricultores não só nas práticas agrícolas, mas também em outras actividades necessárias à agricultura, como a auto-organização, obtenção ou compra de insumos, venda da produção, entre outros.

  7. Aumentar o número de mulheres extensionistas.


Por fim, foi também identificada a necessidade de ampliar a visão do mundo dos agricultores, para que tenham consciência de que os seus problemas são partilhados com muitos outros agricultores, e para estimular a procura de soluções para os seus problemas. Da mesma forma, políticas públicas de apoio à produção agrícola, assim como ajudas à compra da produção, são também consideradas fundamentais para o desenvolvimento futuro dos agricultores moçambicanos.


Esperamos que estas conclusões (diferenças de género, importância dos extensionistas, ampliação do foco de trabalho dos extensionistas, trabalho de longo prazo, etc.) sirvam para reflectir e debater sobre as diferentes medidas a serem adoptadas no futuro e que finalmente sirvam para melhorar a qualidade de vida dos agricultores e dos ecossistemas em que vivem. A equipe do projeto está totalmente disponível para qualquer esclarecimento adicional e para realizar futuras colaborações.


Os habitantes do distrito de Mabalane enfrentam uma longa e intensa seca que dura mais de cinco anos. Na foto, reunidos em torno do único poço de água da comunidade. A instalação de um poço alimentado por painéis solares tornou-se inútil devido à impossibilidade de reparar a avaria sofrida.

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